Servidor mais antigo do Teatro Amazonas, Sêo Nonato morre e é velado no palco onde trabalhou por 50 anos

Foto: Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa

Servidor mais antigo do Teatro Amazonas, Raimundo Nonato Pereira dedicou mais de cinco décadas à manutenção, à história e à alma do principal símbolo cultural do Estado.

Manaus se despediu nesta terça-feira (3) de uma de suas figuras mais emblemáticas no cenário cultural: Raimundo Nonato Pereira, carinhosamente conhecido como Sêo Nonato, faleceu aos 89 anos, deixando um legado de 51 anos de trabalho e amor ao Teatro Amazonas. Funcionário mais antigo do espaço, ele atuou em diversas funções e marcou gerações com sua dedicação silenciosa e firme ao patrimônio histórico e artístico do Estado.

A notícia da morte foi confirmada pelo governador Wilson Lima, que prestou homenagem ao servidor por meio das redes sociais. “Hoje perdemos o grande guardião do Teatro Amazonas. Seus mais de 50 anos como servidor do Teatro se confundem com a história da nossa cultura. Nossa gratidão por toda sua dedicação!”, escreveu o governador.

Da reforma à ribalta

Filho de um ajudante de pedreiro e de uma lavadeira, Sêo Nonato começou sua trajetória no Teatro em 1973, contratado para um serviço emergencial: colocar telhas na cúpula do edifício. A tarefa modesta se tornou o primeiro capítulo de uma longa história. Teve a carteira assinada pouco tempo depois e, desde então, ocupou funções que iam desde pedreiro, porteiro, bilheteiro, até agente administrativo e cenotécnico.

Conhecido por seu conhecimento técnico e sua memória viva dos bastidores do Teatro, Nonato acompanhou desde reformas estruturais até apresentações históricas. Em entrevista anterior, contou com emoção a visita do então presidente João Figueiredo nos anos 1980 e o episódio marcante com o príncipe Charles, hoje rei do Reino Unido, que surpreendeu a todos ao cantar e abraçar funcionárias nos corredores do Teatro.

Reconhecimento em vida

Em 2019, foi homenageado durante o Festival Amazonas de Ópera e eternizado com uma placa na galeria do Teatro, ao lado de artistas que marcaram a cultura local. Em 2021, sua trajetória foi tema de artigo acadêmico publicado na revista Luz em Cena, reconhecendo seu saber construído na prática, sem formação formal em teatro, mas com profunda sensibilidade artística e domínio técnico.

Mesmo após a aposentadoria, continuava frequentando os corredores do Teatro e oferecendo ajuda às equipes técnicas sempre que necessário.

Despedida no próprio palco

Por decisão da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas, o velório de Sêo Nonato será realizado no próprio Teatro Amazonas, nesta terça-feira (3), como forma de reverência à sua história. Amigos, colegas e familiares terão a oportunidade de prestar as últimas homenagens. O sepultamento está previsto para esta quarta-feira (4), no Cemitério Recanto da Paz, em Iranduba.

Um símbolo da resistência cultural

A morte de Sêo Nonato marca o fim de um ciclo para o Teatro Amazonas. Mais do que um funcionário, ele era um elo vivo entre o passado e o presente da cena cultural amazonense. Sua trajetória inspira servidores públicos, artistas e cidadãos a enxergarem o serviço à cultura como um ato de amor e compromisso com as futuras gerações.

Sua ausência deixará um silêncio simbólico nos bastidores do Teatro, mas sua história seguirá ressoando em cada espetáculo, em cada detalhe das coxias e na memória de quem reconhece o valor de quem sustenta a arte com as próprias mãos.

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