Foto: Reprodução Internet
O mundo perdeu, nesta sexta-feira (23), não apenas um fotógrafo de renome internacional, mas um contador de histórias cuja lente jamais se limitou ao enquadramento estético. O brasileiro Sebastião Salgado faleceu aos 81 anos, em Paris, onde residia, em decorrência de complicações de saúde relacionadas à malária que contraiu nos anos 1990. A informação foi confirmada pelo Instituto Terra, organização fundada por ele e sua esposa, Lélia Wanick Salgado.
Natural de Aimorés, no interior de Minas Gerais, Salgado construiu uma trajetória que rompeu as fronteiras da arte, inserindo a fotografia como instrumento de denúncia social, reflexão humanitária e, nos últimos anos, de ativismo ambiental. Ele próprio costumava dizer que fotografava “o homem em seu estado mais essencial”. E foi assim que percorreu mais de 100 países, registrando a saga dos trabalhadores braçais, o drama das migrações forçadas e a beleza bruta de povos isolados.
Salgado transformou a fotografia em palavra e, por isso, sua morte não silencia sua obra — pelo contrário, amplia seu alcance como um legado ético e estético. Seus principais projetos, como “Trabalhadores”, “Êxodos”, “Gênesis” e “Amazônia”, não apenas documentam fatos, mas escancaram as contradições humanas: a força e a vulnerabilidade, a criação e a destruição, a beleza e a dor.
Nos anos 1990, após testemunhar tragédias como o genocídio em Ruanda, Salgado adoeceu, física e espiritualmente. Retornou então ao Brasil e encontrou na degradação ambiental da fazenda herdada da família um novo motivo para agir. Nasceu assim o Instituto Terra, responsável pela recuperação de mais de 2 mil hectares de Mata Atlântica, um feito que colocou Salgado também entre os grandes ativistas ambientais do mundo.
Sua obra, majoritariamente em preto e branco, é marcada por um rigor técnico impecável, mas, sobretudo, por uma profunda compaixão pelo ser humano e pela natureza. “A fotografia é uma maneira de estar no mundo”, dizia, e ele esteve: ao lado de garimpeiros em Serra Pelada, entre refugiados no Sahel, com comunidades isoladas na Amazônia.
Sebastião Salgado foi homenageado com dezenas de prêmios internacionais, como o Prêmio Príncipe de Astúrias das Artes e o título de Embaixador da Boa Vontade do UNICEF. Sua vida e obra também foram retratadas no documentário “O Sal da Terra” (2014), dirigido por Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado, seu filho, que recebeu aclamação internacional e indicação ao Oscar de Melhor Documentário.
Nos últimos anos, segundo amigos e familiares, Salgado enfrentava uma piora em seu estado de saúde, decorrente das sequelas da malária. Os tratamentos médicos haviam perdido eficácia, mas ele permaneceu ativo e envolvido com os projetos ambientais e fotográficos até onde sua saúde permitiu.
O Instituto Terra seguirá como guardião de parte de seu legado, mas o mundo inteiro — fotógrafos, ambientalistas, humanistas — continuará a beber da fonte que Salgado abriu: a de uma fotografia comprometida, política e transformadora.
Mais do que imagens, ele nos deixou um modo de ver e, sobretudo, de sentir o mundo.





